Obstáculos e Hierarquias

 

Como já coloquei em textos anteriores, o impulso delirante, aquele que altera elementos da realidade, com a finalidade de provocar um ajuste adequado entre o que é e aquilo que deveria ser, ou se deseja, é a experiência que mais fragmenta o conhecimento humano. Consequentemente, dissocia sua consciência sobre o que é e ergue o principal obstáculo para o enfrentamento do indivíduo para consigo mesmo. Exatamente isso, não me refiro a interação com outros seres ou com o ambiente. Falo de uma desambientação individual que conduz a uma apropriação desconexa para os encontros estabelecidos.

 

Sobreviver a isso é algo difícil, mesmo pertencendo a nossa rotina. Em verdade, a complexidade está em organizar esse devir e tornar claro a nossa percepção que assim somos. Se alteramos a realidade é porque não a aceitamos, ou, ambicionamos anulá-la, efetivamente, de nosso convívio. Seguindo esses pressupostos, pode-se afirmar a existência de um conflito interno imensurável para o ser, humano. Freud (1900), dissertou sobre o conflito interno psíquico, relatando a guerra travada entre o ego (EU), o ID (impulso instintivo, ou princípio do prazer) e o superego (a Lei social). Indubitavelmente, abrindo caminhos valiosos para a compreensão de nossas desarmonias e desequilíbrios.

 

O EU, ou ego, é, sim, a junção consolidada entre o perfil único e intransferível de cada indivíduo, constituído de uma bagagem orgânica mais o aprendizado de características (caráter), vivenciadas ao longo do processo de desenvolvimento. Em ambas há uma herança cultural e histórica, pois é composta da essência de ancestrais que já se experimentaram em meio ao senso comum. As raízes paradigmáticas e os dogmas padronizados para o funcionamento de cada uma das partes e da coletividade, manifesta-se diretamente dentro dos mecanismos educacionais. O superego, então, atua, desde os primeiros ensinamentos, como um juiz que regula, monitora e sentencia as reações de cada um dos educandos.

 

Cada atitude deve adequar-se a um quadradinho diferente, definido pelas normas, para que o comportamento seja instituído como bom e, assim, socialmente aceito. Da mesma maneira, pode ser julgado como mau, punido e corrigido para que então se adeque, podendo chegar a ser marginalizado. Aí vem as condenações, como castigos, advertências verbais ou físicas e todos os mecanismos pseudo pedagógicos de adestramento praticados por toda a vida. Interessante é que o meio social é o monstro que encarcera. O ID, a vítima que tenta fugir, pois o princípio do prazer é antagônico às leis e o coitado do ego fica ali intermediando essa loucura toda. Uma panaceia. A hierarquia origina-se do questionamento sobre a importância mais relevante: a parte ou a soma das partes? Traduzindo simplisticamente, é melhor ser feliz ou agradar aos outros? Simples assim.

 

A busca por uma resposta mais adequada, afinal, idealiza-se ser feliz e lembrar que vivemos em grupo, projeta-se para as frágeis alianças que se estabelecem nos meios comunitários. Pessoas, parafraseando Platão, passam a vagar em busca de um ideal de ego, e não de sua cara metade. O ideal de ego é aquele que, supostamente, consegue conquistar, o que o EU não faz. É um herói, um ícone a quem me espelho para sair dos calabouços do senso comum e chegar aos raios do sol que se ascendem no fundo da caverna. Diferentes referencias se formam, idolatrias situacionais e carregadas de habilidades amplas são identificadas e incorporadas, não necessariamente internalizadas, a fim de transmutar esse EU e fazê-lo mais forte perante a sentença maior de ser humano. Zygmunt Bauman no livro A Sociedade Individualizada diz “A hierarquia social, com todos seus privilégios e privações, é construída com as medidas diferenciais de valor das fórmulas de vida disponíveis para várias categorias de seres humanos. ”.

 

            Assim, formamos diferentes sistemas, grupos em que nos inserimos, fragilizados por um disputa de desejos, estabelecendo uma equação que subtrai e divide, simbolizando a competição que diferencia, que estabelece vitoriosos e perdedores. Gera-se, naturalmente, a história sem fim, aquela que se repete, não renova-se, maculando esse princípio de individualidade e mantendo o engessamento adestrador que aniquila por séculos a qualidade de vida das pessoas

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