Eu, o Louco

A loucura foi meu objeto de estudo ao longo de anos. Confesso que aprendi a percebê-la como um universo ímpar, uma manifestação linda e ingênua, raramente percebida e, consequentemente, valorizada, pela sociedade. Foucalt (1972), afirma que o sujeito da loucura é aquele que é jogado à margem. Sua retrospectiva histórica, resgatando os leprosos, os acometidos por doenças venéreas e, então, os ditos loucos, destinavam-se a um mesmo fim: o isolamento. Interessante e verdadeiro, pois tudo aquele que externa algo diferente da dita normalidade, bane-se. Paradoxal, pois, afinal, nem tudo que é normal é saudável.

Ao longo dos séculos, centenas de pensadores, cientistas, estudiosos de diferentes disciplinas, até a atualidade, dissertam sobre a loucura como sendo uma conduta efêmera, não uma ação natural, mas como se esse sujeito fosse responsável por um crime doloso, carregado de intenções para um propósito insano. Mesmo assim, as teorias incorrem em contradições, colocando em xeque a própria capacidade de sustentação da lucidez diante das ações humanas e, pior, resguardando-se, resistentemente, a não se permitirem serem um pouco loucos em determinadas situações. Loucura total pois não há o que se determine para isso, é preciso ter habilidade e capacidade para transpor os limites reais e assim transmutar a si mesmo.

Como dizia, tive a oportunidade indescritível de conviver com tantas diferenças. Posso afirmar que sou um humano felizardo, pois oscilei entre a loucura socialmente aceita e àquela enclausurada pelas contenções mecânicas e químicas que alçam adestrar o impulso dos que igualmente vivem. Quais fatos pude perceber, pensar e reagir nesses polos?

O sujeito institucionalizado, detentor da loucura, é espontâneo, aliás, sua sensibilidade o faz ir além, é ingênuo. Consegue amar por sentir, igualmente, desgosta por se sentir rejeitado ou mutilado em suas expressões. Ingênuo por que expressa o que percebe e sente, e por isso repetidamente condenado por não ser aceito pela organização social. É dócil e arredio, mas não se pode ter outra expectativa frente aos maus tratos e ao desrespeito que interagem. A camisa de força, o choque elétrico, o abandono, a desqualificação, a falta de recursos básicos de sobrevivência e o encapsulamento medicamentoso para controle de devaneios não poderiam gerar gnomos alegres e saltitantes. A mais pura covardia alcançada por parte da humanidade para com seus semelhantes. Agravado intensamente pela aceitação de toda a sociedade que, como disse Dostoievski “Não é encerrando o teu próximo numa casa de saúde que provarás que tens razão. ”

Aí vem a maior de todas as loucuras, a dos grupos declarada por Nietzsche. Sempre coube aos cuidadores e tutores dos loucos a depreciação, a incoerência e a conveniência. Máximas da fragmentação da consciência. Criamos leis para combater aquilo que fazemos. Impomos a inclusão pois marginalizamos. Pregamos a honestidade, porém, corrompemo-nos por qualquer tipo de grilhão, independentemente da situação ou da pessoa com quem convivemos. Repetimos versos de amor e choramos nos filmes de empatia, contudo, ofendemos, traímos e chegamos a maltratar aqueles que dizemos amar. Falamos de justiça adotando posições injustas. Abominamos atitudes erradas e as repetimos em nossas rotinas. Ajoelhamos para rezar, vamos aos templos e sequer seguimos, verdadeiramente, qualquer tipo de filosofia espiritualizada. Enfim, construímos uma verdade sobre ações nocivas e definimos o paradigma social, fragmentado, para exercemos o que não é, contrariando aquilo que se tem como caminho.

A sociedade assumiu a irresponsabilidade, fruto da irreflexão, como devir. Todo aquele que confronta esse sentir e essa percepção, passa a ser banido, como louco desvairado… concluo que, eu, eu sou mais um louco.

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