Individualidade Absoluta

A sociedade, provedora da formação cultural e paradigmática, forma um contingente, quase que absoluto, de seres para exercerem suas respectivas individualidades. Sociologicamente falando, daria para enaltecer essa afirmação como linda, porém, nem toda mulher chorando na escadaria de uma igreja foi abandonada pelo noivo. O contingente refere-se ao grupo que exercita, repete, constituindo-se em um exército que atua sobre um padrão similar, coletivo. Analogamente, os padrões sociais impõem as estratégias de ação e os subordinados, como confere adequadamente ao pelotão, executa, definindo tão somente táticas que se identificam com as estratégias. Logo, há uma robotização comunitária que nos faz reproduzir, continuamente, aquilo que é e permanece ser. Um tipo de condicionamento para a equidade, mas, sem nenhum tipo de justiça, ou seja, apenas uma miserável busca de bons comportamentos.

 

Para as táticas reproduzidas, faz-se necessária muita individualidade. Uma habilidade surpreendente. Essa máxima para a capacidade humana se justifica pois anulamos o impulso natural para a criação e nos restringimos, com excelência, em adotarmos o que está pronto. Uma das etapas do suicídio filosófico humano. Assumimos um estado operacional, funcionamos, mas, de fato, não existimos. O destino pressuposto pela herança da falsa estabilidade que (des)organiza o ser e que mantém a conveniência de sustentação do sistema coletivo. Psicologicamente falando, surge a irracional busca do indivíduo para agradar e ser aceito pelo outro. Claro! Caso não façamos a devida reprodução, não alcançaremos o desempenho esperado, desdobra-se uma desqualificação, a advertência que amputa o poder criativo e alcança a punição que normalmente leva a algum tipo de marginalização do meio social. Exemplos práticos: ser mandando para fora de casa, repetir o ano, perder o emprego e assim por diante.  (BAUMAN, 2008).

 

Imensuráveis tribos fragilizadas se constituem. Um processo compulsivo de luta e fuga é estabelecido com o EU e suas relações externas. O medo, pela associação de diferentes estímulos desconhecidos emerge, a insegurança diante de si e da vida rompe todas as barreiras. O estado vigilante ascende, algumas paranoias ornam esse caminho e a agressividade latente pulsa frente a desmotivação e a falta de sentido que se engessa para o sentido da vida. Como efeito, distanciamo-nos, gradual e progressivamente, de uma essencial necessidade de egocentrismos e nos ilhamos, intensamente, na insana cadeia de egoísmos. Um mero mecanismo de defesa mental para nos mantermos vivos. Mecanismo de defesa é uma função do ego que atua assim que se sente ameaçado pelo aumento do nível de ansiedade. Está explicado porque os transtornos de ansiedade são pandêmicos.  (BECK, 2012).

 

Essa vigília-controle é factual. Sua finalidade é manter o sistema e dar, ilusoriamente às pessoas, a sensação de estabilidade. Estabilidade é a busca incessante à pulsão de vida. Paradoxal, já que, internamente, o mundo interno vive uma constante atribulação de inquietudes e desconfortos. Nenhum animal é dócil estando encarcerado, ainda mais quando isso se dá dentro dele mesmo. Homens, sois animais. Entretanto, esse condicionamento mumificou a ser humano em uma hipotética zona de conforto. Sair disso dá trabalho e, por incrível que pareça, é melhor seguir a epístola divinizada do deixa assim do que a simplicidade cabocla do vamos mudar. Todo processo de mudança é, originalmente, ameaçador, por reter o novo, a novidade. Pouquíssimas vezes percebida como oportunidade. Definimos um devir de estagnação, repetimos, mas não questionamos o mundo externo. Chegamos ao absurdo de conhecermos muito, percebermos ainda mais, contudo, com uma inconsciência proporcional acerca de nós mesmo enquanto indivíduos e do meio como um todo.  Contundentes na conveniência, hesitantes frente a crença do que é bom ou ruim.

 

Zygmunt Bauman (2012), pressupõe, com lucidez, a seguinte condição natural humana: “Ambivalência, ambiguidade, equivocidade… Essas palavras transmitem um sentimento de mistério e enigma; também sinalizam um problema cujo nome é incerteza, e um estado mental desolador chamado indecisão ou hesitação. ”. Precisamos para de estarmos humanos e nos transmutarmos em seres humanos.

 

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