A Ansiedade: O Olhar Através da Individualidade

 

 

Vamos começar desmistificando as crenças sobre os horrores da ansiedade. Naturalmente, a reação ansiosa é natural, saudável e contribui para nos manter vivos. A adrenalina, elemento químico orgânico, gerador da ansiedade, é produzido com a finalidade de nos dar vigilância frente a estímulos definidos como ameaçadores, permitindo a reação de defesa, luta e fuga. Caso um leão entre em um espaço ocupado por nós, faremos de tudo para sairmos dali e não corrermos o risco do bichano atacar. Importante: todo e qualquer ser humano adota reações ansiosas. A questão está no fato de a sociedade moderna ter passado a adotar o leão em suas cabeças, transformando tudo e todos, em muitas situações vividas, em um fato, delirantemente concreto, um desencadeador de ameaças. Por essa razão, hoje, podemos considerar que, igualmente, quase que todo e qualquer ser humano responde à vida de forma ansiosa, mas sem naturalidade e características saudáveis.

 

A individualidade paraguaia  –  tipo produtinhos comprados do outro lado da fronteira nos anos 80  –  não tem a consciência de que a espontaneidade fora aniquilada, incorporando às suas respostas um dever autocrático que dita tudo aquilo que, obrigatoriamente, preciso fazer. O que se pode fazer, primeiramente, passa pelo crivo da autorização e, sendo aprovado, por enquadrar-se nuns modos operantes, é permitido sua execução. Uma verdadeira fábrica de frustrações. Na prática, seguimos religiões indesejadas, ritualizamos o não compreensível, temos nomes que não gostamos, casamos sem saber, temos filhos porque todos têm, trabalhamos a maior parte do tempo para sermos competitivos, estudamos para sermos alguém na vida e, com tudo isso, desconhecemo-nos cada vez mais. Um verdadeiro hospício sem portas, janelas e cadeados. Tudo tão maluco que, mesmo assim, cremos, veementemente, que a individualidade está cada vez mais potencializada nesse devir coletivo. Temos a certeza de que somos livres, que praticamos uma política democrática  –  conduta de liberdade pelo e para o sujeito  – e que contribuímos para a ascensão comunitária. Ledo engado, tornamo-nos meros reprodutores, usineiros de outrem, cuja meta é agradar e ser aceito por esse ser imaginário e assim termos a fortalecido equívoco de nos sentirmos inseridos e participantes do meio.

 

Isso fere, profundamente, o traço inato do animal homem que precisa criar. Sente-se enjaulado, preso às regras e às imposições do que tem que ser. Consequentemente, a sensação de ameaça intensifica-se progressivamente, alcançando à ordem da angústia já nos primeiros anos de vida. Isso é observado já na infância. Nossas crianças, que são ensinadas a serem competitivas, vão para a escola ainda bebês, sentam-se em mesinhas floridas, fazem as tarefinhas e depois brincam nos games, celulares de demais armas tecnológicas de alienação psicomotora, da felicidade e da afetividade. Pior do que não brincarem mais, não se sujarem, formarem aquelas quadrilhas maravilhosas para cometerem peraltices, transformam-se em adultos, precocemente, para estarem mais preparadas para os desafios futuros e, também, para atrapalharem o menos possível seus pais que não conseguem explicar por que resolveram ter filhos.

 

Como a realidade, o instante presente, de crianças, jovens e adultos, é repetitivo e sem graça, nada melhor do que se afastar e passar a frequentar com mais frequência o futuro. Viver o futuro, antecipar o que não existe, é a marca de identidade do ansioso. Mas essa piração tem um fundamento: cria-se uma realidade imaginária, vivendo no futuro, alicerçando-se, ou seja, dando sustentação para a obra, fincando as estacas das perspectivas. Perspectiva nada mais é do que escrever, mentalmente, o conto de fadas sobre o que deveria ser em relação àquilo que é. A maneira, altamente intelectualizada, fina mesmo, de lidar com as frustrações geradas pelo exercício da individualidade. Uma forma de libertação virtual.

 

O tiro sai pela culatra! Essa alteração da realidade, delírio mesmo, é o fermento que aumenta a ansiedade. Sabe-se, sente-se, intui-se, sei lá, mas de fato não se consegue auto enganar por muito tempo e, o sujeito do pensamento acaba se tocando que nem em sonho consegue alcançar o que deseja. Além disso, viver de um tempo e de um espaço futuro é provocar um suicídio filosófico gradativo. Viver é debruçar sobre o instante presente toda a atenção, a motivação a as ações para a realização. O futuro não nos pertence. É só imaginário. Essa confusão pode se desdobrar em transtornos psicopatológicos ansiosos. Não conseguir êxito para seu desejo pode provocar medo, crenças infundadas, pânico por um desespero por vezes inconsciente e assim em diante.

 

É tão somente pelo resgate de si que se alcançará a devida harmonia e equilíbrio da vida sobre a vida. Saboreando a naturalidade saudável da ansiedade e impedindo com que se dê nocividade para um contexto que é, eminentemente, repleto de nutrientes para uma vida plena.

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