Individuação e o Declínio de Humor

Tudo bem que estamos aqui em meio a um jogo de palavras, mas vamos à didática. Se a individualidade dita o que o sujeito deve fazer, dando ampla autonomia, autômata, para seus atos, a individuação faz o ser simplesmente escolher aquilo que pode  –  que deseja e precisa  – . A ampliação dessas definições se fortaleceu no século XIX, processadas tanto pela Filosofia como pela Psicologia que emergia com intensidade. Seu princípio está no resgate de si, rompendo com o senso comum, através de um transmutar-se, efetivamente, em si mesmo. Um uso devido do bom senso, sobressaltando a identidade pessoal e a alocando em uma posição horizontalizada frente ao senso comum, ou seja, anulando qualquer tipo de hierarquia que valorize uma e desvalorize a outra.

 

Com rara expressividade no meio social e de grande dificuldade para ser percebida, a individuação, mesmo saudável, é reprimida e castrada pela pessoa, sujeito único de responsabilidade absoluta e intransferível sobre a individuação. Assumir a si, desdobra-se em consequências paradigmáticas estrondosas, cabendo ao agente transformador, a pessoa, estar habilitada e forte para sustentar suas escolhas. Inicialmente, há uma negação ao modelo social vigente, incluindo a própria família, formadora direta da educação da criatura. Nega-se por não se identificar, logo, não gera a internalização esperada por uma comunidade que cerca. Na sequência, ocorre o afastamento desse núcleo dinâmico, com uma introspecção defensiva para processar e verificar que tipo de referencial será utilizado. O ser em individuação corrompe o sistema que participa, fomentando com isso, em seu mundo interno, o medo, a insegurança e a culpa. Ser diferente é uma missão de peso.

 

Seguindo essa evolução, obrigatoriamente, passa-se por um luto. Negando por não se identificar e assim anulando a internalização, eu preciso matar, para poder dar à luz a outro referencial. A individuação, naturalmente, conduz o ser à automarginalização. Óbvio, não aceitando eu me afasto. Significativamente, percebe-se uma gradativa ruptura com a construção de expectativas, já que não é mais preciso delirar criando condições futuristas idealizadas. Toma-se consciência sobre o presente, reduzindo as ansiedades da individualidade. Uma situação fantástica, mas, nem tudo é um mar de rosas.

 

O romper da individuação estabelece um pressuposto de solidão, não por estar só, mas, por assumir sozinho as responsabilidades desse devir exclusivista da identidade pessoal. Tanto se obtiver êxito como o insucesso, a paga será a mesma a um único responsável. Além disso, não se desconsidera aos que buscam a individuação, aquela sensação de se sentirem Et’s dentro de sua própria morada. Executam sim uma diferença. Pertinente também é a dificuldade que existe para vivenciar essa identidade, pois as pressões sociais e dos pares dentro das comunidades são significativas, colocando em xeque por um bom tempo a certeza sobre as novas opções. Com isso, em direção oposta à individualidade, a individuação tende a puxar o indivíduo para um declínio de humor: culpa, medo, insegurança, luto e algumas frustrações por nem sempre conseguir ser o que sua identidade pede. Momentos em que se mescla e ainda compactua com o senso comum.

Poderia se dizer que essa individuação flutua sobre a égide de uma transição. Socialmente falando, atingimos o máximo de uma escala de transfiguração coletiva e pessoal e por isso não conseguimos ainda ver o que é com clareza. O importante é que tornamo-nos conscientes, pouco ainda, mas estamos, sobre a vitalidade desse renascimento.

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