EU, Logo Deveria Existir: Nem Individualidade ou Individuação

 

 

A contextualização do sujeito é de grandiosa complexidade. Sua sobrevivência na interação coletiva é difícil em virtude da sobreposição de valores imposta pelo senso comum para a manutenção da estabilidade, idealizada. A qualidade de vida, ou, e existência de fato do EU, não se deve a deveres, obrigações, nem mesmo a possibilidades, quereres que aproximam da identidade pessoal. O EU só germina e brota pela consciência que constrói sobre as diferenças que tem e as que o sistema a que pertence apresentam.

Para existir, o EU precisa, naturalmente, participar daquilo que está envolvido. O enraizamento concreto com a vida ambiental é estrutural. Zygmunt Bauman em seu livro A Sociedade Individualizada que “A fé pode ser uma questão espiritual, mas para manter-se firme é necessária uma ancoragem mundana; as amarras devem penetrar fundo na experiência da vida cotidiana. ”. Espiritualmente, a fé ergue-se como um instrumento sustentador de tudo aquilo que se espera e dos desejos delirantes projetados por nosso temor ao desconhecido. É algo que vai bem além de uma questão de fé  –  sem menosprezar a fé, apenas questionando os homens crédulos.

Foi essa estruturação transpessoal, a fé, que afastou o ser de si e de sua realidade. Bem simples, dentro dos dogmas da espiritualização: homens que não poderiam experimentar o livre arbítrio para delegarem a responsabilidade de suas escolhas a um Deus externo.  Falar em ancorarem-se à vida mundana é praticamente uma heresia para a cultura religiosa. Mas esse é o fato. Ninguém e, absolutamente ninguém, pode fugir de seu atual estágio de evolução. Isso só se dá nas ilusões do pensamento, mas, há um prazo de validade. O sujeito vai esbarrar sim nas suas limitações. Viver é, sim, saborear as próprias limitações, as potencialidades e, a partir de aí predispor-se a definir suas escolhas.

As maiores e mais influentes crenças humanas não são as religiosas,  –  as de religação a Deus  – , mas as definidas no próprio pensamento e organizadas pela cognição e a afetividade, sem necessariamente, pautar-se naquilo que é, mas naquilo que deveria ou poderia vir a ser. Isso dá a fragilidade de todos os EU’s, pois a alteração da realidade aproxima o que não existe, não é sólido, fomentando a precisão de modificação recorrente do que é criado, delirantemente. Com isso, o EU deixa de existir e passa a simplesmente determinar um estado de incerteza. Sobrevive em desarmonia e desequilíbrio e a precariedade desse estado o leva a supor que deveria existir. Pressupõe-se a dinâmica da individualidade e da individuação até aqui.

Hipóteses contínuas são formuladas para que se capacite para o enfrentamento da vida. Isso se desdobra em uma fragmentação exponencial para o que é, ou seja, alternativas diversas para algo ou alguém cuja sentença é única. É como se para um mesmo resultado fossem construídas diferentes fórmulas, um tipo de prova real sem consistência para provar a si mesmo o que se deseja alcançar. Contrariamente aquilo que se pode afirmar, essa dinâmica resulta em uma fragmentação sem conexão exata, potencializando a insegurança de quem se é e do que é aqueles com quem se vive. Em suma, o caos. Caos pessoal observado pelo adoecimento mental e físico das pessoas e coletivo representado pela agressividade executada direta e indiretamente gente ao mau trato individual e relacional.

Então, para o EU para de crer que existe, precisa mudar. Transgredir o modelo atual e iniciar sua transição para uma nova condição. Definir isso levará tempo, com certeza, mas partir para a transição se faz inevitável. O EU tem que passar a existir, e isso é urgente. Renascer em si mesmo é o princípio, aproximando-se do que se identifica, respeitando o que lhe é diferente, tentando e errando, mas seguindo o que se é e não aquilo que se quer para cada um de nós.

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